segunda-feira, 20 de abril de 2020

Exclusiva Mídia explica: a transferência da capital para Brasília

Exclusiva Mídia explica: a transferência da capital para Brasília

Saiba como foi o lento processo de saída do litoral para o interior




A ideia de transferir a capital do país do litoral (Rio de Janeiro) para o interior, com o intuito de dinamizar o território brasileiro, levou ao menos 170 anos em gestação, desde a primeira menção durante a Inconfidência Mineira (1789).
Tiradentes, o alferes Joaquim José da Silva Xavier, reconhecido como a maior figura da conspiração patriótica, foi igualmente, o principal responsável pelo projeto de mudar a capital”, conta o jornalista e pioneiro de Brasília Adirson Vasconcelos, em seu livro A Mudança da Capital.


A obra compila várias informações sobre a saída da capital brasileira do litoral até o sudeste de Goiás. O nome Brasília foi sugestão do “patriarca da Independência”, José Bonifácio Andrada e Silva, que, antes da Independência, já defendia a ideia de transferência.


A crítica à concentração da população brasileira no litoral, entretanto, vinha de muito antes e já aparecia no livro História do Brasil, de 1627, do frei franciscano Vicente de Salvador. Segundo ele, os colonizadores portugueses contentavam-se a “andar arranhando as serras ao longo do mar como carangueijos”.


Formosa da Imperatriz


Os estudos de campo para a localização da nova sede da capital começaram ainda no Império. Em 1877, o nobre Francisco Adolfo Varnhagen, visconde de Porto Seguro, se licencia do posto de chefe da delegação brasileira em Viena (Áustria) para viajar em lombo de burro do Rio de Janeiro a Goiás.


Na Vila Formosa da Imperatriz, a atual Formosa, descobre em um triângulo formado pelas lagoas Formosa, Feia e Mestre D’Armas. “Uma paragem mais central, mais segura e mais sã para capital do Brasil, nos elevados chapadões, de ares puros e boas águas”, conforme documenta o jornalista Adirson Vasconcelos.


Mas foi na República que a internalização do centro do poder político virou lei. A transferência da capital foi prevista em três constituições republicanas (1891, 1934, 1946). Por causa dos dispositivos constitucionais, vários presidentes ordenaram estudos para a localização da nova capital.


A Missão Cruls, a cargo da Comissão Exploradora do Planalto Central do Brasil, instituída pelo presidente Floriano Peixoto, chefiada pelo engenheiro civil belga Luiz Cruls - na verdade Louis Ferdinand Cruls, amigo de Joaquim Nabuco – teve o mérito de, nos anos de 1892 e 1893, fazer amplo estudo sobre as condições geológicas, de vegetação, clima e de abastecimento de água em um quadrilátero de 14,4 mil quilômetros quadrados que passou a constar em mapas oficiais com a designação de “Distrito Federal”.


O primeiro Rima



A comissão chefiada pelo engenheiro belga deixou como herança “o primeiro relatório de impacto ambiental (Rima) elaborado no Brasil”, descreve o jornalista Jaime Sautchuck, no livro Cruls: histórias e andanças do cientista que inspirou JK a fazer Brasília.


Cinquenta anos mais tarde, o trabalho de Cruls foi ratificado pela comissão de técnicos nomeada pelo presidente Eurico Gaspar Dutra, sob coordenação do general Djalma Polli Coelho. Em 1948, Dutra encaminha o relatório dessa comissão para a Câmara dos Deputados. Os parlamentares estendem o “quadrilátero Cruls” a Unaí (MG) e a Anápolis e Goiânia (GO). No final do ano seguinte, depois de tramitar nas duas casas legislativas, o projeto de mudança é aprovado no Senado.


Em 1953, segundo período de Getúlio Vargas na Presidência da República, o Palácio do Catete, sede do Poder Executivo, é autorizado pelo Congresso Nacional a realizar “estudos definitivos” para localização da nova capital. Mais uma vez, o trabalho da missão Cruls é respaldado por nova comissão constituída, que seguiu trabalhando, mesmo após o suicídio de Getúlio, em 1954.


Essa comissão, que no período de Café Filho na presidência (1954-1955), teve à frente o marechal José Pessoa Cavalcanti de Albuquerque, contrata estudos com base em fotos aéreas feitas pela empresa norte-americana de consultoria Donald Belcher & Associate, para escolher o sítio da nova capital.


Cinco áreas são avaliadas pela consultoria, renomeadas por cor e repassadas para a decisão da comissão. Entre elas o Sítio Castanho, já demarcado pela missão Cruls. A esse sítio, formado por áreas que pertenciam à antiga Planaltina e banhado pelos rios Paranoá, Bananal e Gama, será somado o Sítio Verde que acrescia as cabeceiras do rio São Bartolomeu. Os dois sítios eram cortados pela estrada Planaltina-Anápolis e, juntos, formavam a área atual do DF de 5,8 mil quilômetros quadrados.

Acaso e oportunidade



Juscelino Kubitschek, Brasília - Divulgação Governo Federal



A nova capital poderia ter sido São João Del Rey (MG), como queria Tiradentes; na comarca de Paracatu (MG), como indicou José Bonifácio; Belo Horizonte (MG), Campinas (SP) ou Petrópolis (RJ) como debateram os constituintes de 1934, e ainda Goiânia, como preferia Café Filho. Por pouco, o lugar escolhido para Brasília não ficou no triângulo mineiro – como preferia, inicialmente, Juscelino Kubistchek.


Foi do acaso e do senso de oportunidade política de JK, então candidato à Presidência da República, que surgiu a promessa de trazer a capital para o território goiano.


Em um comício na cidade de Jataí, a 330 quilômetros de Goiânia, em abril de 1955, Juscelino é indagado por um morador, chamado Antônio Soares Neto (Toniquinho), se cumpriria a Constituição e finalmente traria a capital para o interior. “Um cidadão interpelou-me se, como eu prometia obedecer a Constituição, também me dispunha a construir a nova capital federal, no Planalto Central”, rememorou o próprio JK em artigo de 1976 republicado no livro Brasília: antologia crítica, organizado por Alberto Xavier e Julio Katinsky. 


“Havia, mesmo, em todos os mapas, o quadrilátero destinado a futura capital. Eu não podia fugir do destino: como me comprometeria, sobre minha honra, a cumprir a Constituição, teria de obedecer àquele requisito. Foi quando passei a pensar no assunto”, descreve Juscelino antes de acrescentar: “ao estudarmos conjuntamente os pontos de estrangulamento da economia brasileira, senti uma iluminação ao perceber, só então, a influência que a construção da nova capital poderia ter naquele sentido.”


JK fez da construção de Brasília a “meta síntese” de seu plano desenvolvimentista que prometia 50 anos em cinco.

Plano Piloto



Empossado, o governo Juscelino Kubistchek vai seguir as metas desenvolvimentistas, inclusive a construção da capital que exigia um Plano Piloto a ser escolhido em concurso público. Vinte e seis propostas foram apresentadas por arquitetos e engenheiros no Concurso de Brasília, ou Concurso Nacional do Plano Piloto da Nova Capital do Brasil, aberto em 1956 e encerrado em 1957. Sete projetos foram premiados.


O primeiro colocado, como se sabe, foi Lúcio Costa, que pediu desculpas aos organizadores do concurso pela “apresentação sumária”. Seu projeto, de acordo com o livro “O concurso de Brasília: sete projetos para uma capital”, de Milton Braga, trazia “o mínimo do exigido pelo edital”. Conforme o urbanista, a sua iniciativa não era de alguém que “pretendia competir”, mas apenas desvencilhar-se “de uma solução possível.”


O Plano Piloto de Lúcio Costa foi o 22º a ser entregue na disputa. O traçado era “feito à mão e colorido, na escala de 1:25000”. O relatório que acompanhava tinha 24 páginas (metade do 2º colocado), 17 datilografadas em tamanho ofício e mais “sete contendo croquis em traço preto.”


Segundo Milton Braga, o presidente da comissão julgadora, Sir William Holford, assessor de urbanismo do governo britânico, avaliou que o relatório apresentado por Lúcio Costa “não continha uma única palavra sem propósito, constituindo, antes de qualquer outra coisa, uma bela peça literária.” O texto foi revisado por Carlos Drummond de Andrade, que apenas corrigiu a ortografia para o português corrente.


Entre as vantagens, o júri apontou que o Plano Piloto de Lúcio Costa era “claro, direto e fundamentalmente simples” e que possuía o “espírito do século 20”, pois era “novo, livre, aberto e disciplinado sem ser rígido.”


Com uma cruz que tem sua haste horizontal arqueada para cima, “gesto primário de quem assinala um lugar ou dele toma posse”, Lucio Costa apresenta o primeiro esboço dos eixos Monumental e Rodoviário, as principais artérias viárias da cidade inaugurada em 21 de abril de 1960. Naquele instante, Brasília começa a deixar de ser sonho e passa a ser realidade.



Edição: Lílian Beraldo




domingo, 22 de dezembro de 2019

Resistente a Radioatividade


Como fabricar material ultraduro e resistente à radioatividade
Redação do Site Inovação Tecnológica - 16/12/2019
Amostra do B6C, o material mais duro da natureza, depois do diamante e da fase cúbica do nitreto de boro.
[Imagem: Universidad de Sevilla]






Carbeto de boro
Quando se fala em materiais ultraduros e não tão caros quanto o diamante, o carbeto de boro desponta nas primeiras posições.

Trata-se de um material cerâmico extremamente duro e estável a temperaturas muito elevadas, usado em diversas aplicações industriais, ferramentas de furação, armaduras de tanques, coletes à prova de balas, revestimentos antirradiação de reatores nucleares etc.

Mas não é um material único; na verdade, é uma família de materiais cerâmicos com fórmula genérica BxC, onde x é o número de átomos de boro para cada átomo de carbono.
O representante "oficial", ou canônico (em linguagem científica, estequiométrica), é o B4C, mas a família vai do B4C ao B14C, ao menos teoricamente. Como as características de cada um variam não linearmente com a quantidade de boro, é necessário sintetizar o material para checar suas propriedades.

B6C
O B6C já havia sido descrito pela teoria, mas ninguém havia conseguido fabricá-lo para confirmar suas propriedades previstas, que prometiam ser ainda melhores do que seus parentes comerciais.

Foi justamente isso que conseguiram agora Bibi Moshtaghioun e seus colegas da Universidade de Sevilha, na Espanha.

O B6C foi fabricado utilizando a técnica de zona flutuante a laser, que consiste na fusão por meio da aplicação de intensa radiação laser e, em seguida, na rápida solidificação. Isso é muito mais simples e viável do que as técnicas tradicionais de alta pressão e alta temperatura normalmente utilizadas na obtenção de materiais ultraduros.

A técnica permitirá fabricar um material barato e ultrarresistente para uso em aviões, carros e outros meios de transporte. Além disso, o B6C também é ultrarresistente à radioatividade.
A fase B6C obtida por esta técnica apresentou uma dureza de 52 GPa e um módulo Young de 600 GPa - para comparação, a dureza do diamante é de cerca de 45 GPa, embora possua um módulo Young de 1050 GPa.

"Isso faz da fase B6C o material mais duro da natureza, depois do diamante e da fase cúbica do nitreto de boro," afirmam os pesquisadores.
Bibliografia:
Artigo: Elusive super-hard B6C accessible through the laser-floating zone method - Autores: Bibi Malmal Moshtaghioun, Francisco L. Cumbrera, Diego Gómez-García, Jose I. Peña - Revista: Nature Scientific Reports  -  Vol.: 9, Article number: 13340
DOI: 10.1038/s41598-019-49985-2


quinta-feira, 31 de outubro de 2019

A intimidade da materia


Interação entre luz e matéria chega ao nível dos fótons e átomos individuais
Redação do Site Inovação Tecnológica - 25/10/2019











 Ilustração esquemática do experimento - a interação se dá entre um átomo artificial e um único fóton. [Imagem: Universidade da Basileia/Departamento de Física]



Interação luz-matéria
Físicos conseguiram criar uma interface entre a luz e a matéria na qual uma cavidade microscópica permite a interação eficiente entre um átomo e um fóton.

Dentro dessa cavidade, um único fóton é emitido e absorvido até 10 vezes por um átomo artificial, o que abre novas perspectivas para as tecnologias quânticas.

A conversão de um quantum de energia emitido por um ponto quântico para um fóton e vice-versa é bem fundamentada na teoria, mas "ninguém nunca havia observado essas oscilações tão claramente antes," disse o professor Richard Warburton, da Universidade de Basileia, na Suíça.

Fóton conversando com átomo
Conseguir uma interação entre um único fóton e um único átomo é um enorme desafio devido ao pequeno tamanho do átomo. No entanto, ficar enviando fótons rumo ao átomo várias vezes por meio de espelhos aumenta significativamente a probabilidade de uma interação.

Normalmente, as partículas de luz voam em todas as direções, como quando saem de uma lâmpada. Por isso, os pesquisadores usaram um emissor de fótons únicos, posicionando um ponto quântico em uma cavidade com paredes reflexivas. Os espelhos curvos refletem cada fóton emitido até 10.000 vezes, causando uma interação entre a luz e a matéria.

Os pontos quânticos são como átomos artificiais. Essas estruturas semicondutoras são formadas por dezenas de milhares de átomos, mas todos se comportam como se fossem um único átomo: quando são opticamente energizados, seu estado de energia muda e eles emitem um fóton.

As medições mostram que um único fóton é emitido e absorvido até 10 vezes pelo ponto quântico. No nível quântico, o fóton é transformado em um estado de energia mais alto do átomo artificial, momento no qual um novo fóton é criado. E isso acontece muito rapidamente, o que é muito desejável em termos de aplicações tecnológicas quânticas: um ciclo dura apenas 200 picossegundos.

Tecnologias quânticas
O experimento é particularmente significativo porque não há interações fóton-fóton diretas na natureza. No entanto, é necessária uma interação controlada para uso no processamento quântico de informações.

Ao transformar a luz em matéria, uma interação entre fótons individuais se torna indiretamente possível, o que se dá através do desvio de um entrelaçamento entre um fóton e o spin de um único elétron preso no ponto quântico. Se vários desses fótons estiverem envolvidos, torna-se possível criar portas quânticas por meio dos fótons entrelaçados.

Este é um passo vital na geração de qubits fotônicos, que podem armazenar informações por meio do estado quântico das partículas de luz e transmiti-las por longas distâncias.
Bibliografia:

Artigo: A gated quantum dot strongly coupled to an optical microcavity
Autores: Daniel Najer, Immo Söllner, Pavel Sekatski, Vincent Dolique, Matthias C. Löbl, Daniel Riedel, Rüdiger Schott, Sebastian Starosielec, Sascha R. Valentin, Andreas D. Wieck, Nicolas Sangouard, Arne Ludwig, Richard J. Warburton - Revista: Nature - DOI: 10.1038/s41586-019-1709-y