segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Cada dia com uma configuração!



Em 2050, será mais comum fazer sexo com robôs do que com humanos, estima futurólogo.
Bryan Nelson | Atlanta| Mother Nature Network - 12/10/2015 - 06h00
A ascensão dos 'robossexuais': o que isso significará para os relacionamentos humanos? Para cientista, "sexo no mundo virtual é provavelmente muito, muito melhor"










Sexo vende, não há dúvidas quanto a isso. Mas sexo com robôs é uma ideia com a qual muitas pessoas podem demorar um pouco para se acostumar. Ainda assim, transar com robôs pode se tornar a revolução sexual do futuro, se levarmos em conta o atual ritmo do desenvolvimento tecnológico e o apetite humano por material erótico.



Flickr/CC/Alex LABeijo hi-tech também irá substituir o convencional?

Na verdade, até 2050, sexo com robôs pode se tornar mais comum do que sexo entre humanos de carne e osso. Esta é a previsão de um recente artigo intitulado "Relatório sobre o Futuro do Sexo: a Ascenção dos Robossexuais", do futurólogo Ian Pearson. No relatório, ele argumenta não apenas que o sexo virtual e o sexo com robôs superarão as relações íntimas entre humanos, mas também que esse avanço poderá ser positivo.

Contudo, isso não significa que a situação não colocará dilemas morais, emocionais e filosóficos para os humanos envolvidos. Se o sexo com robôs se tornar efetivamente o futuro da intimidade, ele certamente dará um novo significado ao temido status de relacionamento “É complicado”.

Embora o sexo com robôs possa não parecer muito desejável à primeira vista, ele se torna menos estranho se levarmos em consideração a grande variedade de brinquedos sexuais e substitutos eróticos já disponíveis para os consumidores. Os robôs sexuais são mesmo tão mais ultrajantes do que as bonecas infláveis, por exemplo? Na verdade, levando-se em conta o aumento no número de relacionamentos virtuais, o sexo virtual, pelo menos de forma rudimentar, já deixou de ser uma tendência de nicho e se tornou algo amplamente aceito. Afinal, o sexo em um mundo virtual é realmente tão diferente do sexo por telefone, ou das fantasias sexuais que se desenvolvem na imaginação de um indivíduo?

Flickr/CC/Nathan Adams - Mercado de produtos eróticos é um dos que mais crescem no mundo

Na verdade, sexo no mundo virtual é provavelmente muito, muito melhor.

A tecnologia
Para entender de fato a viabilidade desta iminente revolução sexual, é útil se atualizar sobre as tecnologias por trás dela. O futuro do sexo, de acordo com o relatório de Pearson, tem duas faces. Atualmente, estão sendo desenvolvidos robôs realistas (ágeis e equipados com uma cobertura macia, semelhante à pele humana, talvez até mesmo programados para se comportar de acordo com suas preferências pessoais) e, ao mesmo tempo, realidades virtuais interativas também mais realistas. É provável que os dois mundos eventualmente se unam, por meio do controle virtual dos robôs sexuais. Imagine uma tecnologia semelhante àquela retratada no filme de 2009 "Avatar", mas com uma reviravolta erótica.


Vídeo da banda Björk mostra relacionamento entre robôs:

Na verdade, já que uma inteligência artificial não precisa habitar nenhum robô específico, você pode levá-la consigo e utilizá-la em vários robôs. Você poderá alterar a aparência de seu parceiro ou parceira sem que para isso precise alterar sua personalidade, sua essência.

Grandes avanços em novas maneiras de se conectar virtualmente com outra pessoa ou com uma inteligência artificial já podem ser previstos. Luvas especiais já podem emular certos aspectos do toque e da textura da pele, por exemplo. Mas isso é apenas o começo.

Como explicado no relatório: "o que estamos vendo é apenas a aurora da realidade virtual, com headphones pesados e uma ampla variedade de estimuladores. Logo haverá óculos mais leves e, em seguida, lentes de contato ativas, além de sensores dérmicos capazes de gravar e reproduzir sensações. Por fim, teremos conexões diretas com o cérebro e, finalmente, seremos capazes de estimular diretamente a área septal para produzir um orgasmo ao simples toque de um botão. Enquanto isso, a tecnologia nos permitirá compartilhar experiências, habitar outros corpos ou até mesmo imobilizá-los ou controlá-los eletronicamente".


Relacionamento com robôs é uma constante na ficção cientifica| Flickr Jason

Se você já acha escandaloso o fato de o site de encontros para casados Ashley Madison ter sido hackeado, imagine a ameaça que a exposição dos dados destes dispositivos poderia representar em um mundo futurista de sexo virtual.

Como isso mudará os relacionamentos humanos?
Embora o sexo com robôs possa eventualmente superar o sexo com humanos, isto não é necessariamente algo ruim para a sexualidade humana. Pearson prevê que o desenvolvimento levará as pessoas a fazerem mais sexo e, talvez, até mesmo a conquistarem maior liberdade sexual, sem suas consequências negativas. O sexo poderia se tornar mais seguro, com a diminuição do medo de DSTs, e dar às pessoas uma válvula de escape para fantasias sexuais que podem não ser consensuais. Certas barreiras sociais que se antepõem à intimidade podem ser eliminadas. Idade, saúde e atração física não importarão em um mundo virtual ocupado apenas por avatares, por exemplo. Talvez os relacionamentos humanos passem a se focar mais na intimidade mental e espiritual, e não em atributos físicos.

Isto não significa que não haverá obstáculos morais e emocionais a serem superados. O que seria considerado traição no mundo do sexo virtual? Como você se sentiria se voltasse para casa e encontrasse seu parceiro ou parceira transando com um robô? E se o robô tivesse o rosto de um conhecido? E se tivesse o seu rosto, mas o comportamento de outra pessoa?
O amor e o sexo poderiam se tornar coisas cada vez mais separadas e independentes. Tribunais terão que tomar decisões sobre as consequências legais do uso da aparência de outra pessoa sem sua permissão.

À medida que as inteligências artificiais se tornem mais desenvolvidas, os humanos poderiam também acabar se apaixonando por elas. Quão seriamente deveríamos levar um relacionamento como este? E quanto a casamentos entre robôs e humanos? Qual seria o efeito do aumento do sexo com robôs sobre a taxa de reprodução humana?
Em Inteligência Artificial, de Steven Spielberg, Gigolô Joe é um robô programado para ser um amante perfeito:

Estas questões sociológicas e filosóficas são apenas a ponta do iceberg. Ainda estamos para ver se tudo isso acabará ou não saindo conforme as previsões de Pearson, mas não há dúvidas quanto ao poder e à criatividade da libido humana. Nossa predisposição ao sexo com robôs pode evoluir juntamente com a tecnologia, e as limitações tecnológicas podem ser de fato a única barreira real impedindo que a visão de Pearson se torne realidade.
É como se costuma dizer: If you build it, they will come*.

(*) Nota do tradutor: Referência a um filme de 1989 com Kevin Costner, “Campo dos Sonhos”, em que a frase era sussurrada ao protagonista por um fantasma que queria encorajá-lo a construir um campo de baseball em sua propriedade rural, a fim de que fantasmas de jogadores famosos pudessem jogar juntos novamente. Aparentemente, a frase se tornou uma espécie de dito popular nos Estados Unidos, querendo dizer algo como “Se você tomar a iniciativa, as outras pessoas vão se interessar e comparecerão”. “Come” aqui é um trocadilho, significando tanto “vir”, quanto “gozar”, de modo que a frase pode ser interpretada como “Se você construir, eles gozarão”.

Tradução de Henrique Mendes
Texto publicado originalmente no site Mother Nature Network

terça-feira, 8 de setembro de 2015

A Europa ainda nao possui desenvolvimento pleno.



OCDE: países industrializados
estão longe do
desenvolvimento sustentável






A maioria dos países industrializados da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE) ainda não está preparada para os novos objetivos globais de desenvolvimento sustentável previstos até 2030, que os líderes mundiais adotaram formalmente este mês em cúpula especial da Organização das Nações Unidas (ONU).

Segundo estudo comparativo dos 34 Estado-Membros da OCDE, divulgado hoje (8) pela Fundação Bertelsmann, existe o risco de um fracasso no cumprimento dos objetivos.

O estudo identifica os Estados que podem se tornar exemplo a ser seguido para o cumprimento de determinados objetivos de desenvolvimento sustentável e aqueles onde continuam a  ser verificadas graves deficiências.
Entre os países mais preparados para cumprir os novos objetivos da ONU estão as nações escandinavas como a Suécia, Noruega, Dinamarca e Finlândia, seguidas da Suíça. Os Estados Unidos, a Grécia, o Chile, a Hungria, Turquia e o México são os que estão em posição pior.

“Tendo em conta o aumento da desigualdade social e o desperdício de recursos, os países ricos não podem continuar a dar lições ao mundo, nem ditar como devem se desenvolver os países emergentes”, disse Aart de Geus, presidente da Fundação Bertelsmann.

O estudo mostra grandes diferenças entre os países em relação a diferentes objetivos, principalmente no que diz respeito à desigualdade social, que alcançou nível sem precedentes nos países industrializados.
Nos 23 países da OCDE, os 10% mais ricos ganham tanto, ou mais, que os 40% mais pobres.

Também são observadas grandes diferenças quanto à contaminação do ambiente. Países como a Austrália, o Canadá, a Polônia ou o México emitem uma quantidade de dióxido de carbono por unidade de produção econômica seis vezes superior à da Suécia ou Noruega.

“Se os países em desenvolvimento conseguiram reduzir à metade sua taxa de mortalidade infantil com a ajuda dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, deveríamos poder exigir aos países industrializados que tornem os seus modelos econômicos mais socialmente iguais e sustentáveis, com a ajuda dos novos objetivos da ONU”, afirmou Christian Kroll, coordenador do estudo.
Edição: Graça Adjuto
08/09/2015 07h34 – Berlim Da Agência Lusa

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Luminares da filosofia...

CONSIDERAÇÕES SOBRE CULTURA EM HERBERT MARCUSE E WALTER BENJAMIN
Estava a procura de algo sobre Herbert Marcuse. Tenho-o relacionado ao movimento da contra cultura dos anos 60 e 70. Buscava algo que me alimentasse o espirito com novas informações e relativo aprofundar sobre sua filosofia. Deparo com este encantador texto do doutorando em filosofia Paulo Silvino Ribeiro, para o BRASIL ESCOLA. É um texto didático e ao mesmo tempo facilitador para a compreensão do papel desse pensador sobre nossas relações sociais neste inicio de século. PAULO.  

sociologia
Herbert Marcuse e Walter Benjamin, ambos filósofos, definiram e conceituaram a ideia de cultura em suas obras, de forma que é possível realizar um diálogo entre eles.



O presente artigo discorre apenas (observando a impossibilidade de esgotamento do tema) sobre alguns pontos importantes das obras de Herbert Marcuse (1898-1979) e Walter Benjamin (1892-1940). Tais autores conduzem suas obras a uma esfera crítica e reflexiva quanto ao marxismo, abordando categorias e conceitos que ora dizem muito sobre as consequências e rumos produtos da prática marxista do passado e do momento em que escrevem (primeira metade do século XX), ora dizem muito quanto a uma espécie de proposta ou releitura daquilo que poderia (ou não) e mereceria ser feito. Logo, será da preocupação em sugerir e descortinar uma realidade reificada e “contaminada” pela lógica capitalista que nascerão tais trabalhos, num questionamento quanto às maneiras de se alcançar a efetiva tomada da consciência de classe e, dessa forma, superar a conjuntura capitalista dada.

 Num primeiro momento, peculiar a ambos os autores, há a incômoda constatação não apenas do cerceamento dos meios e instrumentos que poderiam levar à tomada da consciência –da “verdadeira” e necessária consciência –, mas também à alienação produzida pela sociedade industrial consequente de tal situação. O que chama a atenção desses teóricos (como da Escola de Frankfurt de maneira em geral) é a maneira com que os partidos de ideologia marxista (como na Alemanha) lidaram com a reificação da sociedade e das relações sociais/de trabalho após terem alcançado o poder (desembocando mais tarde em regimes totalitários, fascistas), bem como a forma com que leram o materialismo histórico para a luta da classe proletária, para alcance da consciência de classe.
Além disso, cultura, história, arte, literatura, enfim, são alguns dos conceitos que permeiam as obras de Marcuse e Benjamin, e que aqui possibilitaram uma espécie de diálogo (até onde isso é possível) entre tais autores, uma vez que esses temas guardam entre si características comuns no tocante à promoção do esclarecimento e tomada de consciência do indivíduo numa sociedade industrial moderna. 
Segundo Marcuse, relegados ao âmbito da cultura estariam a literatura, as artes, a filosofia e a religião, todas de certa forma apartadas daquilo que ele chamou de práxis social, a qual por sua vez seria uma série de “práticas” e condutas pertinentes ao desenvolver das atividades do dia a dia. Nas suas palavras, a cultura seria identificada como o complexo de objetivos e valores morais, intelectuais e estéticos, considerados por uma sociedade como meta da organização, da divisão e da direção de seu trabalho, havendo metas culturais e meios factuais. Assim, a cultura se relacionaria a uma dimensão superior, da autonomia e da realização humana, enquanto a práxis social (ou o que Marcuse chama de “Civilização”) indicaria o âmbito da necessidade, do trabalho e do comportamento socialmente necessários. Ao passo que o conceito de progresso (progresso técnico propriamente dito) vai se estabelecendo cada vez mais no reino das necessidades e formas de trabalho do homem, essa relação entre “cultura superior” e práxis social vai se transformando. Será com a complexalização das práticas capitalistas e, dessa forma, com o aumento do processo de reificação da sociedade (que até certo ponto respondem por este progresso) que haverá uma verdadeira incorporação e imbricação da práxis social e da cultura, resultando negativamente nesta última, principalmente se levar em conta seus objetivos transcendentes, aponta Marcuse (1998).
 Dessa maneira, Marcuse vai fazer uma espécie de apologia à forma como a filosofia do passado era entendida, mais precisamente no tocante à sua característica básica de propor a reflexão acerca do mundo e do homem, dentro de um constante sentimento deste último de mal estar com a sociedade, sua posição, sua ação. Com a reorientação dos moldes das relações de sociais e trabalho, com o recrudescimento das formas capitalistas de produção, essa mesma “cultura superior” (da reflexão, do contestamento, construída por um espírito imbuído de um caráter antagônico a ordem) se torna ideológica, utópica, sendo dominada pela lógica utilitarista e de operacionalismo do pensamento vigente da sociedade industrializada. Em outras palavras, ela se rende e perde seu caráter questionador.
Na lógica da sociedade industrial moderna, as necessidades são redefinidas, da mesma forma que os valores que norteiam e orientam os homens. Estes são capazes de se mobilizar para a guerra ou despender forças em conjunto para a defesa e a manutenção do sistema, reproduzindo alienadamente uma ordem que definiu para eles suas “verdadeiras” necessidades. Em outras palavras, os indivíduos sob o efeito dessa submissão aos meios de organização da vida (organização esta dada pela sujeição à cultura ao progresso científico como ordem do dia) na sociedade industrial a tomam como verdade, como fato dado. Será esse comportamento que produzirá um descomprometimento ou atrofiamento ao exercício da reflexão e do questionamento, uma vez que aquela capacidade de outrora do refreamento está sufocada.   
Ao passo que as ciências (naturais e humanas), os valores, a “cultura e a civilização” se nivelam, destroem-se as possibilidades de contestação e de mudança. Esse prejuízo do espírito ligado à reflexão e ao questionamento reflete nas condições de tomada da consciência de classe, a qual é lida como caminho à contestação da ordem estabelecida. O acesso à cultura pela cultura não significaria necessariamente emancipação, uma vez que esta seria reproduzida pela própria burguesia, logo imbuída de seus valores, afirmação essa que se vê também em Benjamin. Para mudar essa situação, seria necessária uma mudança social das necessidades vitais (que foram remodeladas com o capitalismo). A libertação, ou retomada dessa, propõe o que Marcuse chamou de reparação da dimensão cultural perdida com tal “progresso” que no passado, no âmago daquela cultura superior na fala desse autor, estava protegido da violência totalitária.
Quando Benjamin vai propor conhecer uma obra de arte, uma produção artística, como um resgate de algo que ocorrera e vive ainda no presente, aproxima-se de Marcuse no que diz respeito ao repúdio desse evolucionismo e nivelamento –como das ciências –advindos da sociedade moderna, estando no passado uma “lição” que leva à reflexão. Se para Marcuse a manutenção do que chamou de cultura superior ou pura é interessante no tocante à preservação de seu potencial como via antagônica à ordem dada com a sociedade industrial, para Benjamin é essencial ter-se no conceito de história não uma construção cujo lugar é o tempo homogêneo e retilíneo, mas sim um tempo saturado de “agoras”, para neles se compreender o presente e agir.
Enquanto ao historicista cabe uma imagem eterna do passado, cabe ao materialista histórico a conotação de uma experiência única a este mesmo passado. O puro historicista (e a ele se dirige a crítica direta de Benjamin) contenta-se em estabelecer um nexo causal entre vários momentos da história, como uma colcha de retalhos, isto é, dentro da lógica que remete a ideia de evolução e progresso, desconsiderando a influência ou repetição do passado no presente. “A idéia de um progresso da humanidade na história é inseparável da idéia de sua marcha no interior de um tempo vazio e homogêneo. A crítica da idéia do progresso tem como pressuposto a crítica da idéia dessa marcha”(BENJAMIN, 1985, p. 229).
Assim, é preciso valorizar as experiências passadas que o evolucionismo desconsidera, uma vez que a história é retilínea para este. Esse seria o caminho equivocado tomado por uma leitura historicista da cultura, fazendo com que esta última não revele de forma transparente a mensagem de cunho emancipador de cada obra, por ora “adormecida”. Benjamin vai chamar a atenção à possibilidade de uma teoria materialista da cultura. Para construir uma tradição, ele pretendeu ir além do aspecto político do marxismo, uma vez que as questões ligadas ao domínio da cultura teriam ficado em um segundo plano. Retomou Engels e, em contrapartida, fez uma interpretação diferente da II Internacional, uma vez que esta admitia um evolucionismo e um progresso ao longo da história, simpatizando-se com estes. Para Benjamin, a forma como se estudava a história da cultura por nomes como Eduard Furchs, colecionador e historiador, era equivocada, uma vez que o que se produzia, nas suas palavras, era uma ciência de caráter museológico. Tornava-se a manter um inventário de obras, mostrando sua “evolução”, tomando a história como colcha de retalhos. Carecia-se de uma ciência que renunciasse a isso, e a ela deu o nome de “materialismo dialético”.
 Assim, para Benjamin, é possível afirmar haver uma teoria materialista da cultura, o que pressupõe de maneira geral que toda a ideia de evolucionismo presente nas leituras do materialismo histórico de outrora (e do modo burguês de fazer história) caia por terra, evolucionismo este que mais tarde fomentaria a cega crença no progresso apresentada pelo Partido Social Democrata.
Logo, tanto para Marcuse quanto para Benjamin, a maneira como se reproduzem o “fazer história” (para o último) e o “pensar” da cultura (para o primeiro) dessa sociedade capitalista acabam por fomentar um distanciamento da real tomada de consciência da realidade. Esse grau de “desenvolvimento” a que chegou a sociedade presente (burguesa, industrial), com o viés de uma lógica progressista e evolucionista, não apenas mudou a função tradicional dos elementos culturais que moldavam os valores éticos e morais, mas também camuflou as reminiscências (e respostas) do passado contidas nas obras de arte, permitindo, consequentemente, que o poder de contestação (do indivíduo) se enfraquecesse.
A cultura é redefinida pela ordem existente: as palavras, os tons, as cores e as formas das obras sobreviventes permanecem as mesmas, porém aquilo que expressam perde sua verdade, sua validade; as obras que antes se destacavam escandalosamente da realidade existente e estavam contra ela foram neutralizadas como clássicas; com isso já não conservam sua alienação da sociedade alienada (MARCUSE, 1998, p.161).
Logo, a forma como é construída a cultura para Marcuse e a maneira em que se dá a reprodução de um historicismo da cultura (de cunho evolucionista) para Benjamin impedem a tomada da consciência de classe.
No entanto, a defesa do acesso da cultura pela cultura não resultaria de fato na emancipação do indivíduo. Nessa lógica dos pensamentos de Marcuse e Benjamin, a máxima do “saber é poder” acaba por ser questionada, pois a cultura que é elaborada no presente tem um viés de mentalidade burguesa. Seria necessário politizar a cultura, politização esta que se dá na escolha e nas condições de reprodução e apresentação da arte. Toda obra e produção cultural nesse cenário de forte imbricação da cultura e da práxis social (isto é, de nivelamento dessas esferas e de extrema racionalização da vida) é apresentada de forma destacada de sua história, escondendo as relações que guarda com seu contexto quando de sua confecção, isto é, não tornando claro o resgate das experiências de outrora como aprendizado, experiências estas necessárias para a mudança social como sugerido por Marcuse.  Assim, na fala de Benjamin, como não se leva em consideração essa politização na sua produção (da obra), não se levará em conta sua reprodução, e dessa forma, esquece-se que no âmbito do capitalismo, a reprodução da obra acaba por torná-la uma mercadoria.  
É essa preocupação com a supressão do potencial político da cultura que permeia tanto a obra de Benjamin quanto a de Marcuse. Nesse sentido também se dará a crítica ao Partido Social Democrata, o qual defende esse discurso (do acesso à cultura) como o caminho para luta. Benjamin vai dizer que a base para a construção dessa visão da cultura vem a reboque da concepção de história, vista de forma retilínea e homogênea, não se dando conta da barbárie (dada pelas condições do desenvolvimento) que se fazia presente; barbárie esta que refletiu na perda do Partido Social democrata do comando do Estado para a implementação de um regime totalitário. “A teoria e, mais ainda, a prática da social democracia foram determinadas por um conceito dogmático de progresso sem qualquer vínculo com a realidade” (BENJAMIN,1985, p. 229). O objetivo da Social democracia era o mesmo em relação à ciência, vista como emancipadora e orientadora, e, dessa forma, deveria se tornar algo próximo ao povo. Essa lógica sugeria que a cultura por si só desse poder ao povo, emancipando-o. Na contramão dessa afirmação, Benjamin e Marcuse afirmam que essa cultura construída pela “ciência burguesa”, como diria Lukács (2003), não seria válida, mas que se deveria buscar algo no passado para se pensar o presente buscando a promoção de uma ação. Daí a redefinição do conceito de história ser o ponto alto da obra de Benjamin, o qual vai propor a observação da história a contrapelo rompendo com a linearidade dos evolucionismos.
 Grosso modo, Benjamin critica a ação do Partido apontando o equívoco do conceito de história defendido, que reflete no modo da reprodução da cultura e sua assimilação e, dessa forma, divide com Marcuse tanto a valorização da retomada das condições (experiências) de outrora para descortinar essa sociedade reificada, quanto o diagnostico que vê a supressão e a “despolitização” da cultura ao passo do progresso. Assim, o conceito de história que era fundamental para o marxismo (haja vista o materialismo histórico) deveria ser reformulado, assim como o próprio discurso marxista o deveria ser, pois a luta de classe estava inserida nestes conceitos: na história e na cultura.

Paulo Silvino Ribeiro
Colaborador Brasil Escola
Bacharel em Ciências Sociais pela UNICAMP - Universidade Estadual de Campinas
Mestre em Sociologia pela UNESP - Universidade Estadual Paulista "Júlio de Mesquita Filho"
Doutorando em Sociologia pela UNICAMP - Universidade Estadual de Campinas


quarta-feira, 15 de julho de 2015

Nos limites do sistema solar!

NEW HORIZONS






Finalmente hoje pela manha (cerca de 8 horas) o robô viajando a mil quilômetros por hora, teve sua aproximação máxima de Plutão e seguiu em frente.  Não olhou para trás ainda, esta compilando dados e surpresas. Depois vai se virar para verificar a pluma das atmosferas de anão e de Caronte  contra o disco solar distante sete bilhões de quilômetros e seguira entre rochas, cometas e mundos através do cintura de Kuiper.



E terá desvendado mais possibilidade para a humanidade. Aprendemos que depois da orbita de saturno é um sistema frio demais, igual demais. Pensávamos assim, ate as descobertas dessa espaçonave que saiu da terra a 58 mil k/h. E que nave. Portadora da tecnologia do milênio estava preparada para sentir Plutão, Caronte e suas luas, estudar o em torno e fazer descobertas. Talvez pelo raio total do planeta, talvez pelas possiblidades do novo que sempre tais esforços científicos podem trazer.

A maravilhosa surpresa do relevo de Caronte, com desfiladeiros, montanhas. O equador e hemisfério sul, com marcas que podem ser fosseis de mares e lagos outrora existente naquele mundo.



Trata-se de novas possibilidades, num momento que estudamos Vesta  e Ceres, com a inovação revolucionaria da espaçonave DARWIN e seu motor iônico, pousamos um robô no Ghuryumov-Gerasimenko e o orbitamos, e de quebra passeamos em rasante de apenas 12 mil quilômetros num mundo descoberto apenas em 1930. Completa a visitação humana a todos os mundos do sistema solar. O que virá depois: novo pouso na lua,  retorno a atmosfera de Vênus, pouso humano em Marte.
E ainda a possível captura de um asteroide e lançado os princípios e procedimentos para  mineração espacial. São passos e tanto. Que precisamos dar para salvaguardar nossa espécime, o homo sapiens. Garantir no DNA para as gerações  de amanha.

Agora Plutão, amanha onde quisermos.





sábado, 25 de abril de 2015

Ordem e Progresso na cultura arcaica e racista brasileira

Ordem e Progresso

NA RECEITA geral dos políticos brasileiros, o positivismo é um ingrediente deviante, que maturou na qualificação perversa da nossa sociedade. é um interessante estudo do Prof. Sêga.  
Mais do que um simples lema na bandeira, as idéias positivistas de Augusto-Comte impregnaram a nascente República brasileira.
por Rafael Augusto Sêga



Benjamin Constant Botelho de Magalhães (1836-1891) como ministro da Instrução Pública reformulou todo o ensino brasileiro de acordo com as idéias de Augusto-Comte.
Descrição: http://www2.uol.com.br/historiaviva/img/px_branco.gif
  A verdade, meu amor, mora num poço, / É Pilatos, lá na Bíblia quem nos diz, / E também faleceu por ter pescoço, / O (infeliz) autor da guilhotina de Paris. / Vai, orgulhosa, querida, / Mas aceita esta lição: / No câmbio incerto da vida, / A libra sempre é o coração, / O amor vem por princípio, a ordem por base, / O progresso é que deve vir por fim, / Desprezaste esta lei de Augusto Comte, / E foste ser feliz longe de mim.







Este trecho do conhecido samba de Noel Rosa e Orestes Barbosa, Positivismo, de 1933, demonstra a presença da filosofia positivista no meio cultural mais popular do Brasil, a música, ao retratar uma amada que transgrediu o fundamento básico de tal filosofia. Não obstante, essa corrente de pensamento também se faz presente no dístico de nosso maior símbolo pátrio, a bandeira: Ordem e Progresso. É curioso, mas a tentativa mais efetiva de colocar em prática a doutrina positivista, uma ideologia tipicamente francesa, foi realizada em um país latino-americano: o Brasil.

Como isso aconteceu?
A pergunta exige o conhecimento de certos aspectos das origens e dos fundamentos do pensamento positivista ainda na França no século XIX, para mostrar sua chegada e ascendência sobre o pensamento brasileiro dentro do contexto histórico e cultural da época.

O avanço científico europeu do início do século XIX, decorrente da Primeira Revolução Industrial, fez com que o homem acreditasse em seu completo domínio da natureza. O positivismo surgiu nessa época como uma corrente de pensamento que apregoava o predomínio da ciência e do método empírico sobre os devaneios metafísicos da religião.
Nesse sentido, o movimento intelectual erigido por Isidore-Auguste-Marie-François-Xavier Comte, ou simplesmente Auguste Comte (1798-1857), defendia que todo saber do mundo físico advinha de fenômenos "positivos" (reais) da experiência, e eles seriam os únicos objetivos de investigação do conhecimento.

Comte sustentava a existência de um campo de ação, no qual as idéias se relacionavam de forma lógica e matemática e, por fim, toda investigação transcendental ou metafísica que não pudesse ser comprovada na experiência deveria ser desconsiderada.

As raízes do positivismo são atribuídas ao empirismo absoluto de David Hume (1711-1776), que concebia apenas a experiência como matéria do conhecimento e também a Ilustração, ou Iluminismo, que apregoava a razão como base do progresso da história humana.

Dessa forma, o positivismo é fruto da consolidação econômica da revolução pela burguesia, expressa nas Revoluções Inglesa do século XVIII e Francesa de 1789. As ciências empíricas passaram a tomar frente às especulações filosóficas meramente idealistas e Comte buscou a síntese do conhecimento positivo da primeira metade do século XIX, especialmente da física, da química e da biologia.
Seu objetivo era a formulação de uma "física" social (a "sociologia") que reformulasse o quadro social instável decorrente das novas relações de trabalho do capitalismo industrial.

Na primeira fase de seus trabalhos, Comte teve como mentor o teórico do socialismo utópico, o conde de Saint-Simon (Claude-Henri de Rouvroy, 1760-1825). Em sua obra Curso de filosofia positiva (1830-1842), Comte expõe a base de sua doutrina cujos alicerces teóricos estão assentados na norma de três estados do desenvolvimento humano e do conhecimento, o teológico, o metafísico e o positivo.


Na fase teológica o ser humano entende o mundo a partir dos fenômenos da Natureza dando a eles caráter divino. Essa fase encerra-se no monoteísmo. Na fase metafísica, a interpretação do mundo é calcada em conceitos abstratos, idéias e princípios.

Por fim, na fase positiva o ser humano limita-se a expor os fenômenos e a fixar as relações constantes de semelhança e sucessão entre eles. Nessa fase, as causas e as essências dos fenômenos são deixadas de lado para se evidenciarem as leis imutáveis que nos regem, pois o conhecimento destina-se a organizar e não a descobrir.

O fim da filosofia é a organização das ciências, hierarquizadas, segundo Comte, em seis. Na base dessa pirâmide está a matemática, seguida da astronomia, física, química, biologia e sociologia. Em outra obra sua, Discurso sobre o conjunto do Positivismo (1848), Comte parte das feições reais do termo "positivo" para atingir uma significação moral e social maior, a fim de reorganizar a sociedade, com a supremacia do amor e da sensibilidade sobre o racionalismo.
O apogeu dessa tese é a religião da humanidade. A filosofia positiva passa, então, a preconizar também uma teoria de reforma da sociedade e uma religião. A unidade do conhecimento positivo passa a ser coletiva em busca da fraternidade universal e da convivência em comum. A junção entre teoria e experiência é baseada no conhecimento das ações repetitivas dos fenômenos e sua previsibilidade científica.

Assim, é possível o aprimoramento tecnológico. O estágio positivo corresponde à atividade fabril e à transformação da natureza em mercadorias. Se entendermos a ciência como a investigação da realidade física, o positivo é o objeto e o resultado dessa investigação. Dessa forma, a sociedade também é passível dessa análise e a fase positiva será caracterizada pela passagem do poder político para os sábios.

Fragmentação do pensamento
A segunda fase dos trabalhos de Comte é representada em sua obra Sistema de política positiva (1851, 1854), que preconiza a "religião da humanidade", cuja liturgia é baseada no catolicismo romano, estabelecida em O catecismo positivista (1852).

Destarte, a doutrina positivista adquire feição religiosa com credo na ciência. Essa divisão do pensamento comteano também separou seus seguidores em duas correntes: os ortodoxos, que seguiram Comte em seu período religioso; e os heterodoxos, que se conservaram perseverantes ao período científico e filosófico do positivismo.
CONTINUA...